Fundação de ponte e viaduto não se comporta como fundação de edifício. As cargas pulsam com o tráfego, concentram-se em poucos apoios e, em muitos casos, partem de estacas cravadas dentro d’água. É outro problema geotécnico, e a NBR 6122 reconhece isso.
Na revisão de 2019, mantida na emenda de 2022, a norma criou um critério próprio para essas estruturas. Em pontes e viadutos com certa geometria, o ensaio de carga deixa de ser uma escolha do projetista e passa a ser exigência expressa. A seguir, quando o ensaio é obrigatório, como escolher entre PCE e PDA, e o que precisa estar amarrado para a decisão sair correta.
Por que pontes e viadutos têm regra própria na NBR 6122
O DNIT trata como obra de arte especial (OAE) qualquer estrutura que, pelas suas proporções, exige projeto específico: ponte, viaduto, túnel e passarela. A NBR 9452:2023, que regula a inspeção dessas obras, segue a mesma classificação. A NBR 6122 fala diretamente em “obras de arte especiais (pontes e viadutos)” quando trata da exigência de ensaios.
Essa distinção importa. Bueiros e galerias são obras de arte correntes e ficam fora do critério específico. Pontes e viadutos com vão livre relevante entram. O que justifica o tratamento separado é o conjunto de solicitações: cargas dinâmicas vindas do tráfego, fadiga ao longo da vida útil, fundações frequentemente submersas, dificuldade de inspeção pós-ocupação e impacto social grande em caso de falha.
Em uma edificação, a falha em uma estaca costuma ser absorvida pelas adjacentes. Em uma ponte de poucos pilares, cada apoio carrega uma fatia muito maior do total.
Passarelas geram dúvida frequente. A NBR 9452 as classifica como OAE, mas o parágrafo da 6122 fala literalmente em pontes e viadutos.
Na prática, isso significa que uma passarela com vão grande não cai automaticamente na obrigatoriedade específica das OAEs, mas continua sujeita aos critérios gerais de tensão de trabalho e número total de estacas.
A boa engenharia trata a passarela com vão livre relevante como obra de arte para efeito de programa de ensaios, mesmo sem a obrigatoriedade explícita.
Quando o ensaio é obrigatório: o critério dos 30 m e dos 3 vãos
A regra geral da norma continua: ao menos 1% do total de estacas passa por ensaio, com arredondamento pela Tabela 6 do item 9.2.2 (que cruza tensão de trabalho e número de estacas por tipo de fundação). Para a maioria das obras, é esse o piso.
Para OAE, a norma adicionou um critério paralelo. O texto é direto: em obras de arte especiais com vão superior a 30,0 m ou com mais de três vãos (quatro linhas de apoio), é obrigatória a realização de ensaio de carga — seja prova de carga estática, seja ensaio de carregamento dinâmico.
Dois pontos aqui costumam ser lidos errado.
O primeiro é o “ou”. Não são critérios cumulativos. Basta um. Uma ponte com vão único de 35 m entra na exigência mesmo sendo uma estrutura simples. Um viaduto urbano com cinco vãos de 25 m também entra, porque tem mais de três vãos, mesmo que nenhum vão individual passe dos 30 m.
Esse detalhe pega muito projetista de surpresa em obra de concessionária ou prefeitura, onde a soma dos vãos é modesta mas a quantidade de apoios dispara o gatilho da norma.

Critério de obrigatoriedade do ensaio de carga em obras de arte especiais (NBR 6122, item 9.2.2).
A lógica técnica por trás do critério é razoavelmente clara, ainda que a norma não a justifique. Vão superiores a 30 m exige superestrutura mais robusta, geralmente em pré-moldado protendido ou estrutura metálica, e concentra carga em poucos apoios.
Erro em uma estaca, nesse contexto, vira erro grave.
Já o critério dos vãos múltiplos olha para o outro lado do problema: em obra com várias linhas de apoio, a fundação se estende por trecho considerável de terreno, e a variabilidade do subsolo entre o primeiro e o último apoio costuma ser grande, especialmente em pontes sobre rios e várzeas.
Ensaiar uma única estaca, nesse cenário, captura mal o comportamento do conjunto.
O segundo ponto é a alternativa entre ensaio PCE e ensaio dinâmico. A norma admite as duas vias, mas a escolha não é livre como parece.
PCE ou PDA: como a norma trata a escolha
A prova de carga estática é o ensaio de referência. Aplica-se carga controlada por sistema hidráulico contra uma reação dimensionada, e medem-se os deslocamentos da estaca com deflectômetros ou LVDTs.
Em fundação de ponte, isso costuma significar cargas acima de 1.000 toneladas e cronograma de dois a quatro dias por ensaio.
A prova de carga dinâmica (PDA), regida pela NBR 13208, aplica impacto controlado no topo da estaca com pilão e calcula a carga mobilizada e a integridade do elemento pelo método CAPWAP. É um ensaio rápido — cinco a dez estacas por dia em campo é uma produção realista.
A 6122 permite substituir um ensaio PCE por cinco ensaios PDAs, dentro de um limite que costuma escapar: a substituição total só vale quando o número de estacas da obra está entre o valor da coluna B da Tabela 6 e o dobro desse valor. Acima do dobro, pelo menos uma prova de carga estática (PCE) volta a ser obrigatória, não importa quantos PDAs sejam feitos.
| Critério | PCE (Prova de Carga Estática) | PDA (Prova de Carga Dinâmica) |
|---|---|---|
| Norma aplicável | NBR 16903 | NBR 13208 |
| Tempo por ensaio | 2 a 4 dias, incluindo montagem e desmontagem | 5 a 10 estacas por dia em campo |
| Carga máxima viável | Limitada pelo sistema de reação | Variável conforme pilão, calculada pelo método CAPWAP |
| Quando é preferível | Sinais dinâmicos pouco confiáveis ou ensaio à tração | Obra em rodovia em operação ou janela curta de execução |
PCE à tração em pontes estaiadas e pênseis
Em ponte estaiada e pênsil, parte dos blocos trabalha à tração, não à compressão. Os cabos puxam o bloco para cima, e a estaca precisa resistir ao arrancamento.
A NBR 6122 prevê que, nas obras em que os carregamentos principais são esforços de tração ou esforços horizontais, é obrigatória a execução de prova de carga específica para essa solicitação. A montagem é diferente: a reação fica acima, os macacos puxam a estaca para fora do solo, e os critérios de medição se adaptam.
É o tipo de exigência que passa despercebida quando o foco do projeto é só compressão. O assunto tem tratamento próprio em PCE à tração: quando a fundação precisa resistir ao arrancamento.
Como montar o programa de ensaios em uma obra de arte
Quando é obrigatória a realização do ensaio PCE ou PDA em OAE’s? O ensaio PCE ou PDA, é obrigatório em Obras de Arte Especiais (OAE’s) que possuam mais de três vãos (quatro ou mais linhas de apoio) ou vãos superiores a 30 m.
É necessário que ambas as condições sejam atendidas para a obrigatoriedade do ensaio? Não. O atendimento de qualquer um dos critérios, isoladamente, já caracteriza a obrigatoriedade da realização do ensaio PCE ou PDA.
Qual a importância de realizar ensaios PCE ou PDA em OAE’s que não atendem aos critérios de obrigatoriedade da NBR 6122? Mesmo quando não exigidos pela NBR 6122, os ensaios PCE e PDA constituem ferramentas essenciais de controle de qualidade e mitigação de riscos em Obras de Arte Especiais (OAEs). Estruturas como pontes e viadutos possuem elevada responsabilidade estrutural, o que torna indispensável a verificação do desempenho real de suas fundações. Diferentemente de edificações convencionais — nas quais anomalias estruturais tendem a ser identificadas com maior facilidade e antecedência — pontes e viadutos frequentemente não têm suas patologias detectadas a tempo, o que pode resultar em acidentes de graves consequências. Essa característica intrínseca às OAEs eleva significativamente o nível de risco associado a falhas nas fundações. Diante disso, a realização dos ensaios PCE e PDA vai além de uma exigência normativa: representa um compromisso concreto com a segurança estrutural da obra e com a integridade de todos que a utilizarão ao longo de sua vida útil.
O ensaio em OAE entra no escopo da ART do executor, e DNIT, DER e concessionária cobram evidência documental. Obra pública sem o programa exigido pela 6122 entra em risco de paralisação, refazimento e responsabilidade civil.
Em obra de arte especial, ensaio não é improviso
A Sammour Engenharia executa programas completos de PCE e PDA em obras de arte especiais em todo o Brasil, dimensionados conforme a 6122 e adaptados à logística de cada obra. Para entender melhor o cálculo de quantidades, veja também Ensaios em fundações profundas: quantidade de PCE e PDA. Para conversar sobre um projeto específico, fale com nossa equipe técnica.

