Uma torre de linha de transmissão de 60 metros, um aerogerador onshore e uma cortina atirantada de subsolo profundo dividem um problema comum.
Suas fundações não trabalham apenas comprimindo o solo: precisam resistir ao arrancamento. E é nesse cenário que a Prova de Carga Estática à tração deixa de ser uma variação do ensaio convencional e passa a ser obrigação técnica e normativa específica.
A confusão entre PCE à tração e PCE à compressão custa caro em editais, cotações e laudos. O objetivo deste artigo é separar o que muitas empresas tratam como sinônimo, mostrar quando a NBR 6122 obriga o ensaio específico de tração, qual o critério de execução pela NBR 16903 e por que confundir o procedimento com o ensaio de arrancamento de tirante leva a especificações erradas.
O que é a PCE à tração
A Prova de Carga Estática à tração aplica esforços axiais crescentes na fundação no sentido de arrancamento, oposto ao fluxo natural de compressão. O ensaio segue a NBR 16903:2020, com carga geralmente equivalente ao dobro da carga de trabalho prevista, aplicada em estágios controlados.
A diferença operacional em relação ao ensaio à compressão é estrutural. No ensaio à compressão, o macaco hidráulico empurra a estaca para baixo, reagindo contra cargueira ou vigas ancoradas em estacas vizinhas.
No ensaio à tração, o macaco puxa a estaca para cima, e as vigas de reação se apoiam em estacas vizinhas ou em uma placa apoiada no terreno. A instrumentação também muda: os deflectômetros medem deslocamento ascendente, não recalque.
| Critério | PCE à compressão | PCE à tração |
|---|---|---|
| Sentido da carga | Para baixo | Para cima (arrancamento) |
| Deslocamento medido | Recalque | Levantamento |
| Aplicação típica | Edifícios, obras industriais, | Torres, turbinas eólicas, cortinas, hangares |
Quando a NBR 6122 exige PCE específica à tração
A versão de 2022 da NBR 6122 trouxe um item que muitos engenheiros responsáveis ainda desconhecem.
O texto da norma estabelece que, quando os carregamentos principais da estrutura, nas condições mais frequentes de utilização ao longo da vida útil, forem esforços de tração ou esforços horizontais, a execução de prova de carga específica à tração ou ao esforço horizontal passa a ser obrigatória.
Aplica-se o mesmo critério de quantitativo do ensaio à compressão: 1% das estacas, no mínimo, conforme a Tabela 6 da norma.
O ponto crítico é o seguinte: não basta uma PCE à compressão validar a fundação se a obra trabalha à tração. A norma exige o ensaio no sentido real da solicitação.
Uma torre de transmissão cujas pernas a barlavento sofrem arrancamento por ação do vento exige PCE à tração, ainda que o conjunto da estrutura tenha estacas comprimidas em outros pontos.
Quais obras exigem PCE à tração

A obrigatoriedade aparece em uma lista bem definida de tipologias.
Torres de linhas de transmissão lideram em volume. As fundações precisam resistir ao momento de tombamento gerado pela ação do vento sobre cabos e estrutura. Nas pernas a barlavento da torre, a estaca trabalha à tração — e é exatamente essa carga que precisa ser ensaiada.
Aerogeradores onshore apresentam o mesmo desafio em escala maior. A fundação circular ou estaqueada de uma turbina eólica sofre tração na borda oposta ao vento dominante. Com o crescimento do mercado eólico no Nordeste e no Sul brasileiro, o ensaio tornou-se rotina em obras de geração.
Torres de telecomunicações e ERBs repetem o padrão das torres de transmissão, em escala menor mas com fator de exposição ao vento alto. Estaiadas ou autoportantes, todas demandam validação à tração quando o projeto identifica arrancamento como esforço principal.
Cortinas atirantadas e estruturas de contenção dependem da resistência dos tirantes para manter o empuxo do solo contido. Aqui aparece a confusão mais comum, abordada no próximo bloco.
Estruturas com subpressão hidrostática — subsolos abaixo do nível d’água, garagens em zonas litorâneas, túneis, estações de tratamento — sofrem empuxo de Arquimedes que tentam levantar a laje de fundo. A estaca de tração âncora a estrutura contra esse efeito.
Grandes coberturas e hangares completam a lista, com pórticos que sofrem sucção do vento em coberturas extensas.
PCE à tração e ensaio de arrancamento: a confusão que custa caro
A pergunta aparece em quase todo briefing técnico: PCE à tração e ensaio de arrancamento são a mesma coisa? Não são. E confundir os dois leva a editais errados.
A PCE à tração, regida pela NBR 16903, ensaia o elemento de fundação profunda — a estaca — para validar sua capacidade de resistir ao arrancamento. O elemento ensaiado é a estaca inteira, com sua interface solo-estaca em todo o comprimento do fuste.
O ensaio de arrancamento de tirante, regido pela NBR 5629, ensaia um elemento diferente: o tirante de contenção, normalmente uma barra ou cordoalha com bulbo de ancoragem injetado no solo. O ensaio mede a resistência da interface solo-calda no trecho ancorado do tirante, não a capacidade de uma estaca.
| Critério | PCE à tração (NBR 16903) | Ensaio de arrancamento (NBR 5629) |
|---|---|---|
| Elemento ensaiado | Estaca de fundação | Tirante de contenção |
| O que se valida | Capacidade da estaca à tração | Resistência do bulbo de ancoragem |
| Aplicação típica | Torre, eólica, hangar | Cortina atirantada, talude |
Em uma cortina atirantada de garagem, por exemplo, ambos os ensaios podem ser exigidos: PCE à tração na estaca de fundação da estrutura adjacente, e arrancamento nos tirantes da cortina. São ensaios distintos, com finalidades distintas, e precisam ser especificados separadamente no contrato.
Como o ensaio é executado na prática

A execução segue a NBR 16903 com adaptações para o sentido de tração.
Primeiro, a equipe monta o sistema de reação: vigas metálicas apoiadas em estacas vizinhas, projetadas para resistir à força de levantamento aplicada pelo macaco hidráulico. Em seguida, posiciona-se o macaco hidráulico acoplado à cabeça da estaca-teste, com a célula de carga calibrada entre o macaco e a viga.
A instrumentação de deslocamento usa deflectômetros ou transdutores LVDT instalados em vigas de referência independentes, com no mínimo 1,5 metro de distância entre o apoio da viga de referência e o eixo da estaca-teste — exigência da norma para evitar interferência.
O carregamento aplica incrementos típicos de 25% da carga de trabalho do projeto. A cada estágio, a equipe aguarda a estabilização dos deslocamentos antes de aplicar o próximo incremento. A carga máxima alcança duas vezes a carga de trabalho prevista, salvo critério específico de projeto. O descarregamento também ocorre em estágios, para avaliar o comportamento elástico e identificar deformações permanentes.
A duração do ensaio varia conforme o tipo de carregamento adotado — lento (SML), rápido (QML), misto ou cíclico. Um ensaio à tração lento pode levar de um a dois dias completos em campo.
O que o relatório entrega
O laudo de PCE à tração apresenta a curva carga × deslocamento (com deslocamento ascendente), a capacidade de carga última à tração, o coeficiente de segurança em relação à carga de trabalho de projeto, e o comportamento da estaca no descarregamento. Quando há ruptura antes da carga máxima de ensaio, o relatório identifica o estágio de carga em que o deslocamento se torna excessivo, conforme o critério da norma.
A interpretação cabe ao engenheiro responsável pela obra, que compara os resultados com as premissas do projeto. Importante: o recalque admissível para fundação à compressão não se aplica ao deslocamento à tração — o critério de aceitação para arrancamento é específico e precisa estar definido em projeto.
O risco de não fazer (ou de fazer errado)
Subdimensionar uma fundação à tração não gera o mesmo aviso de uma fundação à compressão. Na compressão, o recalque excessivo aparece antes do colapso. Na tração, o arrancamento pode ocorrer em ruptura frágil, sem aviso prévio significativo, especialmente em estacas curtas em solo não coesivo.
Em torres de linha de transmissão, falhas dessa natureza geram interrupção de fornecimento, custo de reforço e, em casos críticos, queda de torre. Sendo assim, o custo de uma PCE à tração representa fração mínima do custo de um reforço pós-execução — sem mencionar a responsabilidade técnica do engenheiro responsável.
A Sammour Engenharia executa Prova de Carga Estática à tração em todo o território brasileiro, com instrumentação calibrada, equipe técnica qualificada e laudo assinado por engenheiro responsável. Se a sua obra se enquadra na obrigatoriedade da NBR 6122 para esforços principais de tração, ou se você precisa especificar o ensaio em edital, fale com a equipe técnica para uma análise preliminar.
